Mostrando postagens com marcador médico. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador médico. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de junho de 2009

Resposta do Dr. Hugo Sabatino ao polêmico artigo ARTIGO “CESARIANA: A Polêmica das Taxas”


Por Hugo Sabatino
Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Resposta do Dr. Hugo Sabatino ao polêmico artigo ARTIGO “CESARIANA: A Polêmica das Taxas”, escrito por Raphael da Câmara Medeiros Parente (Médico do Ministério da Saúde - HSE; Doutor em Ginecologia - UNIFESP; Mestre em Epidemiologia - UERJ) e publicado no Jornal do CREMERJ - ABRIL 2009 - páginas 8 e 9.

"Atualmente, há uma forte campanha governamental a favor da humanização do parto e do parto vaginal. "

RESPOSTA: Esta informação é no mínimo incompleta e tendenciosa, já que as intervenções do governo Brasileiro para redução da cesárea começaram em 1979 com o pagamento igual de honorários médicos no parto vaginal e de cesárea do INAMPS. Continuando nos anos subseqüentes até nossos dias, pelo tanto esta campanha está cumprindo 30 anos , intensificada na era do atual Governador José Serra, quando ele era ministro da Saúde.

"Este conceito de humanização, há muito distorcido, é usado para retirar substancialmente o médico do atendimento obstétrico. Para isto, são divulgadas informações erradas e levianas de que os médicos são menos “humanizados“ que outros profissionais de saúde, que são os únicos responsáveis por altas taxas de cesariana com o objetivo único de preservar sua rotina e aumentar seus ganhos e que não respeitam a autonomia e o desejo das mulheres pelo parto vaginal. Vem sendo dito, inclusive, que o médico não sabe mais realizar um parto vaginal, dando a entender que esta capacidade somente é dominada pelas parteiras, enfermeiros, obstetrizes etc."

RESPOSTA: De fato o conceito de humanização é frequentemente interpretado em forma distorcida, inclusive pelo responsável deste documento, ao qual estou respondendo. Em várias publicações de nosso grupo na Universidade de Campinas, temos identificado, em casos de baixo risco, os seguintes pilares da Humanização:
A) Respeito aos processos fisiológicos da Gestação, parto, puerpério e amamentação materna;
B) Participação multiprofissional e interdisciplinares; e
C) Respeito as costumes regionais e individuais do casal .
Sem a presença destes três pilares não pode ser considerada a atenção ao nascimento de baixo risco, como humana. O problema é complexo porém bem claro para não abrir mão destes pilares. Realizar a finalização de uma gestação de baixo risco, mediante uma cesárea, sem causa médica que a justifique, ainda que esta seja a pedido da gestante (as indicações médicas estão identificadas claramente em todos os livros da especialidade), é uma conduta médica que não respeita os processos fisiológicos do trabalho de parto, parto e nascimento, por este motivo o procedimento cirúrgico realizado de forma desnecessária, deixa de ser um procedimento natural, humano ou fisiológico. Esta situação está bem explicada em todos os livros de texto da especialidade. Aquele profissional que não respeita este principio se coloca por em cima de este processo normal natural (humano), tentando com esta atitude superar este processo fisiológico, delicado, e bastante complexo que envolve qualidade de vida de duas pessoas e de uma família, Seria como pretender modificar fenômenos naturais como a saída do sol ou de um entardecer. O que podemos sim é participar ou assistir a esses fenômenos para sua contemplação com uma boa companhia, porém o que não podemos, ainda que sejamos profissionais competentes e inteligentes de ser capaz e melhorar esse processo. Em relação a querer melhorar o fenômeno do nascimento através de uma cesárea estou colocando a foto e comentário a este respeito, do eminente e respeitado Prof. Dr. Bussâmara Neme, matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo do dia 15 de Fevereiro deste ano. Pelo tanto aqueles médicos que realizam este procedimentos seguramente são menos humanos que aqueles que respeitam o processo fisiológico do nascimento em casos normais, e esta não é uma definição leviana e sim fundamentada na fisiologia do processo. O prestigioso pesquisador Holandês Pieter Eric Treffers (1996), na Guia de Maternidade Segura da OMS, nos informa que: “A Obstetrícia deve acompanhar a fisiologia. Intervenções cirúrgicas devem prevenir ou corrigir patologias e não aperfeiçoar a fisiologia”. Por outro lado todos os livros de cirurgia colocam a operação cesáreas como sendo “cirurgia de alto risco”, devido a que o cirurgião deve invadir o peritônio, aumentando com isto os riscos durante e após a cirurgia, sendo que no caso das cesáreas este risco se estende também a próximas gestações como o demonstram os estudos de Clark (1985). Fig. 2 Estes dados demonstram claramente que desde o ponto de vista dos riscos as mulheres que são submetidas a cesáreas desnecessárias estarão sendo colocadas (sem causa) em próximas gestações a riscos que aumentam significativamente a padecer de um acretismo placentário, o que pode de fato ser muito difícil de corrigir, colocando a vida da mulher em um grupo de maior chance de morte (lamentavelmente esta informação não e transmitida as mulheres que solicitam cesáreas desnecessárias). Esta atitude de sonegar informação esta em conflito com o juramento Hipocratico que diz “Primeiro não fazer dano” (Primum non noccere).
Leia o artigo na íntegra aqui.
Fonte: Grupo de Parto Alternativo - CAISM/UNICAMP

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Uma história de amamentação

Autor: Charles Attwood

Meu tataravô, Dr. Curtis Burke Attwood, que praticava medicina em Newberry, Carolina do Sul no século 18, não acreditaria se soubesse que temos hoje profissionais especializados em aleitamento materno, que atuam como consultores. Eles recebem certificado específico de uma entidade (um conselho) de classe, a International Board of Lactation Consultant Examiners. Nos tempos do meu avô, praticamente todas as mulheres amamentavam seus bebês, mas hoje apenas 59,7% das mães começam a amamentação no hospital e, depois de seis meses, só 21,6% continuam fazendo isso. O objetivo da campanha Healthy People 2000, que visa melhorar a saúde da população para o próximo milênio, é ter 75% das mulheres amamentando seus bebês ao saírem do hospital e 50% seguindo esse procedimento seis meses depois. Como se vê, estamos muito aquém dessa meta.

As vantagens do aleitamento materno são enormes. Os bebês ficam menos sujeitos a doenças agudas e alergias. Os vínculos entre a mãe a criança são reforçados, muito mais que entre mães e filhos que foram alimentados com mamadeira. Então por que só 1/5 das crianças até seis meses de idade mamam no peito? Eu sempre reclamei com meus colegas que nós não dispensamos tempo suficiente para explicar a nossas pacientes esses procedimentos e outras práticas saudáveis. O que acontece, na verdade, é que não damos a elas tempo para fazerem perguntas. Atualmente, as gestantes mal passam 24 horas dentro da maternidade depois de dar à luz; portanto, não temos muita oportunidade de explicar as coisas adequadamente - e frequentemente elas também não tomam a iniciativa de perguntar. Não é à toa que pensamos estar sendo mal compreendidos.

Recentemente, tive uma paciente que embora intimidada pela nossa postura apressada e distante, tentou, com muito esforço, extrair de nós algumas informações básicas. Tentou. Gloria, esse era o nome da jovem mãe, tinha dado à luz ao seu primeiro fiho, no meu hospital. Ela chamou a enfermeira e perguntou se ainda poderia amamentar o bebê, estando resfriada. "estou com tosse e com o nariz escorrendo", disse ela, "e fico preocupada com isso". Ela ia receber alta aquele dia e queria algumas respostas. Animado pela decisão dela de amamentar, orientei a enfermeira a dizer que fosse em frente. Sugeri que a enfermeira colocasse algumas máscaras descartáveis de rosto ao lado de sua cama, para que ela as utilizasse durante as mamadas. Dessa forma, Gloria não precisaria se preocupar muito. Deveríamos ter conversado com ela pessoalmente sobre aleitamento materno, mas ela estava de saída e não havia tempo. Mais tarde, durante a minha visita, parei no seu quarto. "Olá, Gloria", saudei, ao entrar e foi quando eu vi uma coisa que nunca mais esquecerei. Ponha-se agora no meu lugar. Precisei de todo o esforço possível de concentração para não alterar a minha expressão facial. Deparei com Gloria, com uma expressão confusa no rosto, e duas máscaras faciais, uma em cada seio. Depois que a história se espalhou por todo o hospital e as risadas finalmente cessaram na sala dos médicos, refleti sobre a humilhação por que Gloria passara e a sua extrema necessidade de orientação que não tivemos tempo de lhe dar. Meu bisavô Curtis Burke Attwood não teria achado a menor graça nesse episódio.

Texto retirado do livro: Dieta Vegetariana para Pais e Filhos
Foto: Minha filha Melissa mamando em meu peito, novembro de 2004.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Benefícios da amamentação prolongada

Por Kelly Bonyata



(Tradução publicada no site Amigas do Parto, original no site KellyMom - Breasfeeding & Parenting)



Amamentar crianças maiores têm benefício nutricional



Pesquisas mostram que o leite materno durante o segundo ano de vida da criança é muito parecido com o leite no primeiro ano (Victora, 1984). No segundo ano de vida, 500ml de leite materno proporciona à criança:
95% do total de vitamina C necessário
45% do total de vitamina A necessária
38% do total de proteína necessária
31% de caloria do total necessária
(UNICEF/Wellstart: Promoting Breastfeeding in Health Facilities: A short course for Administrators andPolicy Makers; WHO/CDR 93.4)
Leite materno permanece sendo um fonte importante de proteina, gordura, cálcio e vitaminas mesmo após os dois anos de vida (Jelliffe and Jelliffe,1978)
Alguns médicos podem pensar que a amamentação vai interferir em relação ao apetite da criança para outros alimentos. Contudo não existem pesquisas indicando que a criança amamentada têm maior tendência a recusar outros alimentos que a criança que já desmamou.
Na verdade, a maioria dos pesquisadores em países subdesenvolvidos, onde o apetite de uma criança desnutrida pode ser de importância vital, recomendam que a amamentação continue para crianças com desnutrição severa (Briend et al, 1988; Rhode, 1988; Shattock and Stephens, 1975; Whitehead, 1985).
Crianças maiores que ainda amamentam adoecem menos
Os fatores de imunidade do leite materno aumentam em concentração, à medida que o bebê cresce e mama menos. Portanto, crianças maiores continuam recebendo os benefícios da imunidade (Goldman et al, 1983).
Um estudo de Bangladesh demonstra, dramaticamente, os efeitos que essa imunidade pode ter. Nessas péssimas condições de vida, descobriu-se que crianças desmamadas entre o 18º e 36º mês de vida dobraram os riscos de morte (Briend et al, 1988). Este efeito foi atribuído especialmente aos fatores de imunidade, apesar de que, provavelmente a nutrição também foi muito importante.
Claro que, em países desenvolvidos o desmame não é uma questão de vida ou morte, mas a amamentação por mais tempo pode significar menos idas ao pediatra. Crianças entre 16 e 30 meses, que ainda são amamentadas, adoecem menos e por menos tempo que as que não são (Gulick, 1986)
Crianças amamentadas têm menos alergias
Está bem documentado que quanto mais tarde se introduz leite de vaca e outros alimentos alergênicos, menos provavelmente essas crianças vão apresentar reações alérgicas (Savilahti, 1987).
Crianças amamentadas são mais espertas
Crianças que foram amamentadas têm melhor performance na escola e maiores notas (Horwood and Fergusson, 1998). Os autores desse estudo, que acompanhou crianças até os 18 anos descobriram que quanto mais tempo as crianças são amamentadas, maiores as notas que recebem nas avaliações.
Crianças amamentadas são mais ajustadas socialmente
Um estudo com bebês amamentados por mais de um ano mostrou uma ligação significante entre a duração do período de amamentação o ajustamento social em crianças de 6 a 8 anos de idade. (Ferguson et al, 1987). Nas palavras dos pesquisadores: "Existem tendências estatísticamente significantes para que a desordem na conduta diminua com o aumento da duração da amamentação". Mamar durante a infância ajuda bebês e crianças a fazer uma transição gradual. Amamentação é um amororso jeito de atender as necessidades dasa crianças e bebês. Ajuda a superar as frustrações, quedas e machucões e o stress diario da infância.
Atender as necessidades de dependência da criança, de acordo com o tempo único da criança é a chave para ajudar a criança a alcançar sua independência. Crianças que conquistam sua independência em seu próprio ritmo são mais seguras dessa independência que as crianças dorçadas a isso prematuramente.
Amamentar crianças maiores é normal
A "American Academy of Pediatrics" recomenda que as crianças sejam amamentadas por ao menos todo o primeiro ano de vida, e por mais tempo se a mãe e o bebê quiserem (AMERICAN ACADEMY OF PEDIATRICS Policy Statement, 1997). A Organização Mundial de Saúde reforça a importância de amamentar até os dois anos de vida ou mais (Innocenti Declaration, 1990). A média de idade de desmame, em todo o mundo é de 4.2 anos. (Davidowitz, 1992)
Mães que amamentam por mais tempo também são beneficiadas
a) A amamentação prolongada pode diminuir a fertilidade e suprimir a ovulação em algumas mulheres
b) A amamentação reduz o risco de câncer de ovário (Schneider, 1987)
c) A amamentação reduz o risco de câncer de útero (Brock, 1989)
d) A amamentação reduz o risco de câncer de câncer de endométrio (Petterson, 1986)
e) A amamentação protege contra osteoporose. Durante a amamentação a mulher experimenta uma diminuição na densidade óssea. A densidade óssea de uma mãe que está amamentando pode ser reduzida, em geral em 1 a 2%. No entanto, a mãe tem essa densidade de volta e pode até ter um aumento, quando o bebê é desmamado. Isso Não depende de um suplemento adicional naalimentação da mãe. (Blaauw, 1994)
f) A amamentação reduz o risco de câncer de mama (McTieman, 1986; Layde, 1989; Newcomb, 1994; Freudenheim, 1994).
g) A amamentação tem demonstrado diminuir a necessidade de insulina da mãe diabética (Davies HA, British Med J, 1989).

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Mulheres redescobrem o parto natural

O Brasil é um dos recordista de cesarianas no mundo. Enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza uma taxa ideal em torno de 15% do total desse tipo de intervenção nos partos, no País, ainda de acordo com o órgão, alguns serviços privados de saúde atingem cifras de mais de 90%. Até na rede pública brasileira as cesarianas ficam entre 30 e 40%. Contudo, algumas mulheres invertem a tendência e estão preferindo o parto natural. Em Curitiba, um dos maiores defensores desse método foi o médico obstetra Moysés Paciornik, que morreu em 26/12/2008, após sofrer uma parada ardíaca ao ser submetido a uma cirurgia.


Além de defender que os bebês nasçam por intervenção cirúrgica apenas quando houverem riscos para a vida da mãe ou da própria criança, ele foi um grande divulgador dos benefícios do parto de cócoras. Nele, como o próprio nome diz, as mulheres têm seus filhos acocoradas - como fazem as integrantes de tribos indígenas - e não deitadas.“O parto normal deitado nasceu na Europa, mas não é o mais indicado à saúde da mulher, pois pode causar problemas no canal vaginal. As mulheres que passam por ele, quando estão perto da menopausa, geralmente apresentam problemas de útero e bexiga. Em contrapartida, isto não acontece com as índias, que geralmente têm dezenas de filhos sem passar por cesariana e permanecem com a saúde perfeita”, afirmou o médico durante entrevista concedida a O Estado na semana anterior ao Natal. Segundo Moysés, quando a gestante deita para ter o filho, seu canal vaginal se estreita em torno de 28%, o que dificulta a passagem do bebê e o obriga a forçar caminho para nascer.

Já no parto de cócoras, o períneo (região que, para as mulheres, começa na parte de baixo da vulva e vai até o ânus) vai para trás e a bexiga sobe, o que faz com que o canal de parto se alargue e o nascimento seja facilitado.

O parto de cócoras é menos dolorido e muito mais rápido, pois a mãe empurra a criança de maneira mais fácil. Quando comecei a divulgá-lo por aqui (no Paraná), há cerca de 30 anos, ele foi muito criticado. Porém, atualmente, está sendo cada vez mais aceito e tido seus benefícios reconhecidos”, declarou. “O parto de cócoras é muito gratificante para a mulher, pois é ela quem o realiza e não o médico. Além disso, ela vê o filho nascer, o que não acontece no parto deitado.” Em Curitiba, no hospital público Victor Ferreira do Amaral e no particular Santa Cruz, já existem mesas de parto especiais que permitem que a mulher fique em variadas posições e não apenas deitada.
Vivência
A missionária Cynthia Palumbo, de 46 anos, vivenciou tanto a experiência de ter um filho por cesariana quanto por parto normal de cócoras. Há 26 anos, devido a algumas complicações gestacionais, ela teve seu primeiro filho por procedimento cirúrgico.
Na segunda gestação, ficou decepcionada ao ouvir de um médico que, por ter tido o primeiro bebê por cesariana, não conseguiria ter o segundo de forma natural. Foi então que ela procurou Paciornik e conseguiu fazer o parto de cócoras. Posteriormente, teve outros cinco filhos por este método, sendo o último há dez anos.

“O primeiro parto de cócoras foi um pouco difícil, mas mesmo assim bem mais tranquilo do que a cesárea. A partir do segundo, foi ficando cada vez mais rápido e fácil. Além disso, a recuperação é muito mais rápida. Nos dias seguintes à cesariana, eu mal conseguia levantar em função da dor que sentia e era mais difícil fazer as coisas, inclusive cuidar do bebê.”
Artigo publicado no Paraná Online em 01/01/2009.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Memórias de um Ex-cesarista



Recebi este excelente texto de autoria da Dydy, cuja parte inicial eu transcrevo aqui. Vale a pena ler!


Memórias de um Ex-cesarista


Antes eu era um obstetra normal. Era chamado para as festas corporativas de final de ano, dormia a noite inteira e raramente recebia ligações de gestantes nos feriados. E se acontecesse, eu ligava para um colega de plantão e ele operava pra mim.Tinha uma vida social e ia a todos os compromissos pré-agendados, inclusive minhas cesáreas. Tudo pontualmente.


Foi quando conheci a Clara, uma enfermeira recém formada em obstetrícia, contratada para humanizar o parto numa das maternidades em que eu operava. Essas “pressões do governo para reduzir cesárea, sabe como é. Pensei que fosse só pra constar. Afinal, eu já tinha uma postura muito humanizada, oras. Entre a extração do bebê e a seção de tubos nasais da pediatra, eu mostrava a criança rapidamente para a mãe, que ficava emocionada. Mas a pediatra precisava fazer o trabalho dela e isso era o prioritário naquele momento. A mãe teria o resto da vida para curtir. Uma noite sem ele, não mudaria nada.


Enfim, esta Enfermeira começou a conversar com as gestantes que chegavam antes de eu chegar, até que um dia, as peguei numa posição constrangedora: ela e a “mãezinha” de cócoras! Até então só tinha visto tamanha acrobacia em filmes eróticos muitos selecionados. Peguei a doente e operei antes que acontecesse algo pior.


Um dia quando fui ao hospital após a ligação de uma paciente “pós-termo” (40 semanas) e, enquanto me paramentava, escutei um gemido suave e um choro de bebê. Corremos para salvá-los, mas já era tarde. O feto nasceu de um parto completamente “contaminado”. E por sorte, ficaram bem, e tiveram alta após uma semana de nosso ritual de descontaminação. Fizemos o que pudemos: antibióticos, desinfecção. Nunca cheirei tanto éter na vida....


Por pouco não cai no chão. Nas mãos de uma enfermeira que dizia “Acostume-se, ‘doutor’, no futuro os partos serão assim...” O que ela sabia sobre futuro com estas práticas retrogradas? Foi muito traumatizante pra mim, mas pelo menos, ambos sobreviveram.


Para ler o final da história, clique aqui. :-)

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Cansei!


Eu não costumo ser contundente em minhas opiniões sobre a cesárea em meu blog, mas tem horas que simplesmente não dá para engolir. Já cansei da lenga-lenga de amigas e conhecidas (com raras e honrosas exceções) que me dizem: "Meu médico(a) é a favor do parto normal" ou "Estou fazendo de tudo para ser parto normal" ou "Eu quero parto normal, é claro!" e vejo cada uma delas cair em uma cesárea desnecessária - por crise de hemorróidas, por "falta" de dilatação, por "falta" de contração, por cordão enrolado no pescoço, por presença de mecônio, por rotura "prematura" da bolsa de água, por uma ou mais cesáreas prévias, etc. Pior de tudo é depois ter que ouvir o mesmo discurso de sempre: "Ah, mas minha cesárea FOI necessária."

Como diz o ditado, "o pior cego é aquele que não quer enxergar", estas mulheres estão enganando a si mesmas, inconscientemente ou não, para não ter que lidar com o fato de que não foram capazes de resistir aos argumentos de um médico dito “pró-parto-normal”, mas que, na verdade, é um cesarista disfarçado. Não é um cordão enrolado, um mecônio, uma hemorróida, uma cesárea prévia ou uma dilatação lenta que irá impedir um médico verdadeiramente a favor do parto normal de deixar a natureza correr seu curso. Ele irá monitorar com mais atenção os batimentos cardíacos do feto e da mãe, irá conferir o estado de ambos e só então, irá indicar a cesárea, se for realmente o caso.

Já ouvi tantas desculpas para as cesáreas:

“Eu cheguei ao hospital com contrações de 5 em 5 minutos, mas aí eu não tinha dilatação, por isso teve que ser cesárea.”

Hummm ... Acho que ela chegou cedo demais ao hospital e a equipe médica não quis esperar, tacou a faca nela mesmo.

“Entrei em trabalho de parto, mas quando a bolsa estourou, vimos que ele já tinha feito mecônio há mais de um dia. Esperamos uma hora para ver se eu dilatava, mas não deu. Tive de fazer cesárea de emergência.”

Como assim, Bial? Cesárea de emergência? Que emergência? Presença de mecônio sem batimentos cardíacos fetais alterados NÃO é indicativo de cesárea!
Esperar somente UMA hora para ver se dilatava? O parto de primeiro filho pode levar de 6 a 12 horas (ou até mais tempo) e a dilatação também! São raras as mulheres que conseguem a dilatação completa em uma hora!


No início da gravidez: “Eu quero parto normal”
No meio da gravidez, em meio a uma crise de hemorróidas: “Meu médico disse que não vai dar para ser parto normal, por causa das hemorróidas.”
No final da gravidez: “Afinal, eu marquei a cesárea para o dia tal, vocês podem ir me visitar no dia seguinte.”

Essa foi uma das conhecidas que mais me decepcionou, pois na primeira dificuldade (as hemorróidas), ela desistiu rapidinho de ter um parto normal e caiu no papo do médico, mesmo depois de eu ter buscado informações de que hemorróidas não contra-indicavam, de maneira alguma, o parto normal. Ela nem esperou entrar em trabalho de parto, fez uma cesárea com hora marcada! Para quem queria parto normal, ela mudou de idéia muito rapidinho e sem questionar!
E mais tarde, quando fui visitá-la no hospital, ela mal conseguia se mexer por causa da dor do corte da cesárea. Será que valeu a pena?

“A médica marcou uma data para eu começar a sentir as dores. Se as dores não começassem até aquela data, ela faria a cesárea. Aí o dia chegou, eu não sentia dor nenhuma, então ela marcou a cesárea.”

Quer dizer que agora tem hora marcada para começar a sentir as dores do trabalho de parto? O que vem a seguir? Marcar a cesárea quando confirma a gravidez? Ah é ... há mulheres que já fazem isso ...

Finalizo com o discurso que 10 entre 10 mulheres que sofrem uma cesárea dizem, depois de não terem conseguido um parto normal pelas razões que eu listei acima:

“Minha médica é super a favor de parto normal. Ela tentou de tudo. Confio plenamente nela e a cesárea foi absolutamente necessária.”

Então tá. A médica é tão a favor do parto normal, que acabou fazendo uma cesárea desnecessária. Imagina se ela não fosse ... !!!


terça-feira, 21 de outubro de 2008

A ''epidemia'' dos partos cirúrgicos


Gilberto Dupas*


Nos últimos meses, a comunidade médica dos obstetras agitou-se em razão das medidas tomadas pela Associação Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) procurando incentivar as mães a optarem pelo parto normal. Corporativismo e onipotência à parte, estamos cansados de saber que a aliança entre interesses financeiros dos hospitais, conforto dos médicos e comodismo ou receio mal esclarecido das mães têm feito dos partos cirúrgicos, com seus riscos de intervenção de grande porte, uma verdadeira epidemia no Brasil.

É interessante lembrar que a hospitalização para o parto foi fato histórico-social traumático e prepotente. Ainda antes da anestesia e das técnicas mais elementares de assepsia - quando a internação tentou ser imposta como norma, rompendo uma tradição de milênios de partos feitos em casa e assistidos por mulheres experientes - as gestantes tiveram de ser "forçadas" à internação hospitalar e reagiram duramente. A razão principal era a "percepção" de violência e perda de intimidade. Mas havia outra razão importante: a propagação das infecções produzidas pelos médicos ao manipularem as mulheres "em série" nos hospitais, sem que sequer lavassem as mãos, o que aumentava em muito o índice de mortalidade nos partos. Na verdade, ao se liberar de maneira radical das crenças metafísicas, a medicina contemporânea operou uma verdadeira má revolução ética e uma ruptura do seu compromisso de estar a serviço do doente, e não da doença. Separando o doente - subjetivado na relação consigo mesmo e com seu médico - do combate à doença, o discurso médico não é mais capaz de levar em conta na sua prática o drama imaginário, a determinação simbólica e o aspecto ético do sofrimento na relação medicina-doença. O médico não pergunta mais "como você está se sentindo", mas "passe-me seus exames". E são muitos, e muito caros, os exames. O sofrimento fica restrito à doença e a dor, à neurofisiologia.

Para essa medicina tecnocientífica, o doente não é mais que o porta-voz dos sinais da sua doença através dos seus sintomas. Um exemplo importante são os procedimentos ligados ao nascimento de uma criança. A medicina transformou-o de uma função fisiológica - para a qual o organismo da mulher esteve desde sempre preparado - num evento fundamentalmente cirúrgico-hospitalar. Como lembra Vera Iaconelli, o corpo humano passa a ser considerado incapaz e necessitado de "constantes correções de seus desvios biológicos". Todo aparato hospitalar, diretamente ligado à história da industrialização e do capitalismo, vem sendo criticado há décadas e, no entanto, encontra incríveis resistências para ser modificado. Proliferam hospitais modernos e equipamentos sofisticados, mas o "médico da família" desaparece.

No Brasil, quase 80% dos partos no serviço privado são feitos por cesariana, quando a Organização Mundial da Saúde a recomenda em apenas 10% a 15% dos casos. A redução desse índice tem encontrado enormes resistências, a principal delas é o aparato médico-hospitalar e seus interesses econômicos e de conforto. Na rede pública brasileira, esses índices caíram quando o reembolso do parto cirúrgico passou a ser reduzido em relação ao normal. Maternidade é vista como fábrica; parturiente, como máquina; e bebê, como produto. O parto, transformado em evento cirúrgico, vê na mulher meramente um recipiente a ser esvaziado. A ênfase na rapidez e no controle - que predominam nos partos - atrapalha os pais em se apoderarem de seu novo papel, levando-os a duvidar de sua capacidade futura de cuidar dos seus filhos. Vera Iaconelli lembra que o atendimento à gestante é um dos "exemplos mais notáveis da forma pela qual se lida com as questões da subjetividade, pois o espaço das elaborações do vivido mostra-se subtraído e evitado", imprimindo ao parto - início de uma nova vida - a marca registrada tecnológica contemporânea de lidar com o corpo, com a sexualidade e com a morte: banalização ou ocultamento.

Curioso notar que, quando as maternidades de hospitais de luxo querem "modernizar" seu atendimento de parto, introduzem pequenas concessões, como permitir ao bebês ficarem no quarto com a mãe ou serem colocados sobre seu colo, por alguns instantes, ainda na sala de parto. Só muito recentemente as normas hospitalares reconheceram as óbvias advertências de que crianças saram mais depressa em ambiente hospitalar quando a mãe pode ficar com elas nas internações, ou quando têm acesso a salas com jogos e pequenas diversões eventuais, como os chamados "médicos da alegria". Décadas de lutas se passaram para que os lobbies dos grandes fabricantes mundiais de leite em pó fossem parcialmente vencidos e médicos mais responsáveis voltassem a insistir no papel essencial do aleitamento materno exclusivo, para a saúde do bebê. Na realidade, são todos resquícios de um saber milenar que a medicina moderna havia rejeitado.

Enquanto isso, hospitais de periferia carentes de recursos substituem com enorme vantagem as caríssimas, invasivas e "frias" incubadoras pelos hábitos consagrados das "mães-canguru". Ou seja, arrogância e intolerância sempre embalaram as importantes e evidentes conquistas da medicina contemporânea.

Donald Woods Winnicott, famoso pediatra e psicanalista, já dizia sobre o parto que médicos são muito necessários quando algo dá errado. Mas "não são especialistas nas questões relativas à intimidade, vitais tanto para a mãe quanto para o bebê", que precisam apenas de "recursos ambientais que estimulem a confiança da mãe em si própria". É o oposto do que faz, infelizmente, o aparato médico-cirúrgico contemporâneo.

*Gilberto Dupas, coordenador-geral do Grupo de Conjuntura Internacional (IRI-USP), presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais (IEEI), é autor de vários livros, entre os quais, O Mito do Progresso e o recém-lançado romance O Incidente

Artigo publicado no Estadão neste sábado, 18/10/2008, Dia do Médico.