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sexta-feira, 18 de abril de 2008

Rádio ONU: Combate ao Analfabetismo

Autor: Letícia Camargo - Reportagens e Destaques, programa da Rádio ONU em Nova York.

As Nações Unidas lançaram em 2003, a Década da Alfabetização, considerada um reforço à 2ª. Meta do Milênio: alcance universal da educação primária. Atualmente, 20% da população mundial não sabem ler nem escrever. Acompanhe como o Brasil tem tentando combater o analfabetismo nesta reportagem de Letícia Camargo.

A alfabetização é um processo simples, mas que leva tempo. Para um aluno ser capaz de ler um simples bilhete ou escrever seu póprio nome, ele precisa aprender o alfabeto, soletrar sílabas e reunir palavras. Os resultados, no entanto, são enriquecedores e trazem mudanças positivas, segundo professores e alunos.

Mas essa realidade ainda não é comum a todos. O senador brasileiro, Cristovam Buarque, ex-Ministro da Educação do Brasil, diz que a educação, infelizmente, ainda não é considerada fundamental no país.

"A educação não é um valor fundamental no imaginário da população brasileira, seja pobre ou seja rica. O rico gasta dinheiro na educação do filho não é para que ele seja educado, é para que ele tenha um bom salário depois de adulto. O pobre no Brasil ficou tão acostumdao a ser relegado que ele não considera a educação como algo fundamental. Um pobre brasileiro acredita que tem direito a ter um carro igual ao rico, mas não acredita que tem direito de ter uma escola igual à do rico", disse.

A realidade das pessoas que não sabem ler e escrever não é nada fácil e a falta de expectativa de finalmente ter acesso à educação fez com que pessoas como João José de Souza, um agricultor de Mamanguape, no interior da Paraíba, arranjasse seus próprios meios de levar a vida.

"Eu nunca fui na escola, não aprendi a ler nada mas sempre fui inteligente: planto macaxeira, inhame, batata e tenho até uma casinha que eu fiz. Eu me martirizo porque não aprendi nada, mas não tem mais jeito então eu vou escapando até o dia que Deus quiser. Quando eu não sei, eu falo com o povo. Eu tenho andado por todos os cantos e nunca me perdi, aí quando tem uma pessoa mais velha, mais inteligente, eu pergunto para ele. Carta eu não escrevo para ninguém. Notícia só falando assim. Eu mando os outros lerem e eu escuto", disse.

Quando foi inaugurada, a Década da Alfabetização, em 2003, pela Assembléia Geral das Nações Unidas, houve um grande entusiasmo de líderes governamentais em agir em seus países para encarar o problema e atingir metas de redução no analfabetismo até 2012.

Mas segundo analistas, a questão da educação no mundo requer muito mais do que iniciativas. Assim como uma boa lição, a implementação de projetos educacionais precisa de planejamento, dedicação e investimentos a longo prazo.

Segundo Cristovam Buarque, é preciso que haja campanhas não apenas de alfabetização, mas também para a erradicação dela.

"É inacreditável que em pleno século 21, o mundo ainda tenha tantos milhões de analfabetos adultos. O pior é que isso pode ser resolvido sem grandes dificuldades. Quando faz-se uma campanha de erradicação, vai-se às prefeituras, às ONGs, às igrejas, às famílias e mobiliza-se todo mundo com um prazo para concluir o trabalho. Essa é a grande diferença, a erradicação define um prazo, assim como a Década da Alfabetização das Nações Unidas. Quando isso é feito pouco a pouco, afabetiza-se menos do que os novos adultos que chegam analfabetos pelo fracasso das escolas das crianças", disse.

Durante a cerimônia de abertura, o Diretor-Geral da Unesco, o Embaixador Koïchiro Matsuura, afirmou que "por meio da alfabetização os menos favorecidos podem encontrar sua voz".

Para o diretor do Departamento de Educação de Jovens e Adultos do Ministério da Educação e Cultura no Brasil, Timothy Ireland, é importante mobilizar através da educação explicando como a vida, após o aprendizado, pode mudar, mas não necessariamente revolucionar.

"Mobilizar e sensibilizar as pessoas para que eles entendam que a alfabetização deve contribuir para melhorar a qualidade de suas vidas. Não pode ser uma mobilização que engana. Eu acho que a educação freqüentemente muda a vida mas não vai revolucionar, e a pessoa não vai passar a ganhar muito mais por ser alfabetizado, mas tem vários aspectos de sua vida que vão melhorar", disse.

No Brasil, o número de analfabetos começou a diminuir somente nos últimos 20 anos. Hoje em dia, são 15 milhões de analfabetos absolutos, dos quais 3 milhões têm idade entre 15 e 29 anos.

De acordo com o relatório da Unesco, o Brasil está entre os países que estão seriamente em risco de não conseguirem atingir a meta de 80% de alunos alfabetizados nos próximos cinco anos.

Para mudar essa realidade, o Ministério da Educação conta com o programa nacional "Brasil Alfabetizado", apoiado pela Unesco. Segundo Ireland, o programa está progredindo mas os resultados não são vistos.

"Ao longo do período de 2003 a 2006 foram atendidos mais de 7 milhões de jovens e adultos em salas de aulas de alfabetização, mas este número não se reflete na Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio). A Pnad capta que o Brasil está fazendo um esforço grande mas não há uma redução que esperávamos", disse.

O índice de analfabetismo ainda é mais alto em áreas rurais, como no Pará, o norte de Minas Gerais e a região nordeste do país, que é o foco do programa. De acordo com o MEC, a área concentra hoje 90% dos municípios brasileiros com taxa de analfabestismo superior a 35%.

Gileusa Santos, moradora de Santa Rita, na Paraíba, é um exemplo disso. Com 44 anos, ela nunca pode estudar porque era a mais velha de uma família com mais de 20 irmãos.

"Apesar de eu ser analfabeta, eu gosto de me informar. Eu sei as primeiras letras. Eu conheço as letras, só não sei formas as palavras. Eu sei quais são os ônibus que eu pego para os lugares, identifico bem assim mesmo. Eu não aprendo porque não ligo", disse.

A Unesco chama atenção para o fato de que educar adultos não é o mesmo que educar crianças. Para pessoas que não foram educadas durante a infância, é necessário que sejam consideradas as suas prioridades durante a aprendizagem para manter o alunos interessados e engajados, como explica o senador Cristovam Buarque.

"É difícil aprender a ler depois de uma certa idade. O adulto foge de ser alfabetizado pela dificuldade. O adulto trabalha, o professor então tem uma dificuldade tremenda. Além disso o próprio processo cognitivo, a capacidade de aprender, é mais fácil numa criança do que num adulto. Por isso, o método de alfabetizar o adulto tem que chegar à maneira como ele pensa o mundo, tem que motivá-lo conforme o aprendizado dele pode beneficiar na sua vida, no dia-a-dia", explicou.

Um aspecto simples mas extremamente importante quando considera-se alfabetização já adulta é questão da visão. Muitos adultos que voltam às salas de aula, acabam tendo dificuldades na hora de enxergar o quadro, como explica o professor Luis Antônio dos Santos, professor municipal do estado do Rio de Janeiro.

"O que eu vejo colegas reclamando é que a maioria das pessoas com mais idade têm mais dificuldades para enxergar e para entender, mas eu acho que isso são coisas que podem ser resolvidas," disse.

Na Tanzânia, por exemplo, na década de 70, o número de alunos alfabetizaados dobrou após uma grande campanha nacional, onde mais de um 1 milhão de óculos foram distribuídos e livros e documentos começaram a ser impressos com letras maiores.

Mas o analfabetismo é apenas o primeiro problema a ser resolvido, a grande questão ainda é a quantidade de alunos que deixam a escola sem ter a capacidade real de utilizarem seus conhecimentos adquiridos na prática. Esse tipo de situação, extremamente conhecido no Brasil, é chamado de analfabestismo funcional, ou seja, alunos que foram alfabetizados mas não chegaram a completar nem quatro anos de estudos para concluírem o Ensino Fundamental e não possuem as habilidades necessárias para satisfazer as demandas do seu dia-a-dia e se desenvolver pessoal e profissionalmente.

Em todo o mundo, duas em cada três crianças não terminam os quatro anos de educação após a alfabetização. No Brasil os últimos números mostram que existem mais de 32 milhões de analfabetos funcionais, ou seja, 26% da população de 15 anos ou mais de idade.

Um bom exemplo é o uso da matemática que, apesar de ser considerada uma língua mundial, atualmente é preciso que se tenha um conhecimento da cultura ocidental para ser capaz de entender os cálculos. Nisso inclui-se a capacidade de ver as horas, calcular as estações, e fazer medidas simples.

O agricultor João explica que a necessidade de entender os cálculos fez com que ele se interessasse pela matemática.

"Conta eu sei, não faço ela mas eu entendo todinha. Essas continhas de supermercado, quando o cabra faz eu sei todinha. Eu chego em casa confiro e dá certinho. Direitinho eu confiro. Tudo que eu vou fazer, eu já sei como é que é", disse.

O custo de educação ainda é um dos maiores obstáculos pois programas educacionais precisam ser cuidadosamente implementados e isso requer tempo.

De acordo com o MEC, até o final de 2007, R$ 300 milhões serão destinados à alfabetização de jovens e adultos no país, R$ 100 milhões a mais que em 2006.

Um preço, que pode ser alto para muitos, mas que produzirá dividendos sem valor.

Reportagens e Destaques, programa da Rádio ONU em Nova York.

Apresentação: Eduardo Costa

Reportagem: Letícia Camargo

Produção: Helder Gomes, Eduardo Costa e Letícia Camargo

Direção Técnica: Peter Kurisko

http://www.un.org/av/radio/pt/


sábado, 8 de março de 2008

Dia Internacional da Mulher - Blogagem Coletiva

Pela Valorização da Mulher Brasileira

ELAS POR ELA!


Autora: Suely Pavan

Adoro o complementar masculino, eles são fantásticos, mas tenho uma enorme admiração pelas mulheres. Elas são admiráveis, impecáveis. Poucos foram os homens que conseguiram captar a imensidão do universo feminino. Para mim um deles foi o Chico Buarque: Quando você me deixou meu bem, me disse pra ser feliz e passar bem...

Ou ainda:

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas

Vivem pros seus maridos
Orgulho e raça de Atenas..

Chico, como poucos compositores, conseguiu captar o que se passa dentro de uma mulher quando ela sente dor ou amor. Diferentemente do Vinicius de Moraes, que fez uma coisa que as mulheres adoram: Reverenciou-as!

No cinema o Almodovar também captou este mágico universo. Lembro que fui assistir por insistencia de dois amigos gays ao filme “Tudo sobre minha mãe”. No cinema eu sentei no meio dos dois, e lembro que a cada cena mais chocante eles me olhavam esperando ver a minha reação. No final do filme eles me falaram:

- Suely, mas você não chorou? (com ar de decepção)

Eu respondi:

- Não, está é a vida de uma mulher, e sobre o que se passa dentro dela!

Os dois ficaram admirados.

É difícil sim, para a maioria dos homens, captar o que se passa dentro de uma mulher. Elas têm um fortaleza interna que ultrapassa qualquer estereótipo de fragilidade. Às vezes por fora podemos até passar esta imagem de princesinha abandonada, mas quando a situação se faz necessária aparece um furacão capaz de urrar por aquilo que acha justo. Temos muito mais da Princesa Fiona, de “Shrek”, do que podemos imaginar. Quantas mulheres defenderam causas sociais? Quantas salvaram seus filhos? Lembra da mulher que nem sequer sabia nadar, mas ao ver seu filho se afogando se jogou na água sem medo?

Pois é, quem vê apenas a mulher de fora, não percebe aquele ser que está dentro.

Atrás daquela executiva brilhante e bem sucedida, muitas vezes há uma mulher que chega sozinha ao seu apartamento é só quer um homem para lhe ninar, como é bem retratado na peça tetral “Eu Te Darei o Céu”.

Nem sempre somos apenas o que aparentamos. Nos meus estudos sobre o universo feminino, dentre várias descobertas, há uma que é marcante: Quando um homem sabe ter uma mulher, descobrirá que ele tem várias. Nenhuma mulher é apenas uma. Quando bem estimuladas, somos alegres, sedutoras, poderosas, sacertotisas, virgens e devassas.

Nossa capacidade de multiplicação é enorme. Sabemos lidar com vários papéis num único dia, e nossa palavra preferida é “enquanto”.

Enquanto abasteço o carro, lixo as unhas!

Enquanto lavo a louça, falo no telefone sem fio.

Enquanto me arrumo, preparo o jantar.

Enquanto espero o filho na escola, vou mandar lavar o carro.

Somos práticas e múltiplas por natureza, e não é à toa que nos demos tão bem no universo masculino das empresas. Estudamos, trabalhamos, cuidamos de nossa saúde e beleza. E cuidamos dos filhos, dos maridos, e principalmente das relações. Lideranças femininas destacam-se justamente por esforçar-se pela harmonia.

Mulheres bem sintonizadas consigo mesmas, e conscientes das múltiplas mulheres dentro de si, buscam a harmonia relacional. Gostam de juntar as partes. São artesãs de mosaicos aparentemente inconectáveis. Elas conseguem fazer muito, com muito pouco.

Merecem ser homenegeadas sempre, inclusive no dia Internacional da Mulher. Dia sagrado e que representa luta por justiça. E no dia-a-dia por seu esforço, determinação, e beleza por onde passam.

Cá entre nós, repare nas mulheres, elas são belas por natureza. Podem ser mal tratadas pela vida, mas converse com ela, ou “Fale com ela” e veja que atrás daquela cara enrugada e talvez triste há uma mulher forte, capaz de enfrentar desafios.

Desafios que a mulher brasileira enfrenta: fome, violência, salários menores que os dos homens e assédio sexual.

Pra elas há sempre um dilema: Se são naturalmente bonitas, sem apelos de operações ou tratamento estéticos, são consideradas burras. Se não correspondem aos padrões estéticos vigentes, devem ter problemas de relacionamento. Se optam por não querer um casamento tradicional, devem ter problemas de sexo.

São Tomás de Aquino dizia: Mulheres não têm alma!

Fomos esquecidas, subjugadas e vistas como seres inferiores durante muitos e muitos anos.

As coisas melhoraram?

Sim, um pouco.

Precisam melhorar mais, muito mais. A cada 15 segundos uma mulher apanha no Brasil. Ainda sofremos várias formas de discriminação.

Um mundo mais justo se fará com a inserção feminina. Para isto a velha rivalidade feminina deverá ser sobreposta por ideais maiores. Nós podemos sim melhorar este mundo.

Terra e água são símbolos do universo feminino, e lembre-se que a primeira foi devastada e daqui a pouco não poderemos respirar, e a água está cada vez mais escassa.

Nossa simbologia maior, que é o próprio planeta Terra, representa o Universo Feminino. Enquanto não houver justiça social no planeta, nós mulheres e a Terra estaremos em perigo.

E cabe às mulheres encontrar as saídas para um mundo melhor. Um mundo justo e habitável para todos.

Uma vez, dirigindo um psicodrama público numa praça em São Paulo cujo tema era “Que Mundo Queremos?”, aprendi com uma mulher magra e desdentada, que delicadamente foi juntando uma a uma as mulheres daquela praça e com elas criou uma corrente de força por um mundo melhor. Usei diversas técnicas para lidar com esta força delicada e nenhuma foi capaz de arrebatar a certeza daquelas mulheres: só unidas conseguiremos melhorar o mundo para os nossos filhos e netos.

Novamente a aparência enganou a todos. Os homens presentes na praça naquela manhã de sábado ficaram olhando aquelas mulheres esperançosas, mas que sabiam que a saída estava contida na sua força.

Portanto, se você quiser homenagerar as mulheres no dia 08 de março, faça um serviço à sociedade: lembre a elas a força interna que elas têm.

Pra isto, fale com ela, e olhe pra ela. Ouça atentamente quem ela é, e o que diz esta mulher. Olhe nos seus olhos, e preste atenção ao jeito com que ela fala. Você irá encontrar conteúdo, e muitas mulheres desconhecidas. Talvez você até se choque com isto!

Porém, é preciso não tapar o Sol com a peneira. No nosso mundo moderno e competitivo há muitas mulheres que são só casca. Elas perderam a sua alma. Fixaram-se em demasia nas expectativas externas e esqueceram de ouvir a si mesmas, condição básica para qualquer mulher que queira ser feminina.

Infelizmente as mulheres-casca em nosso mundo são muito comuns. Elas estão em todos os lugares. E elas precisam ser ressuscitadas, tal como na música “O Amor”, composta por Caetano Veloso e Ney Costa Santos e inspirada no poema que Vladimir Maiakovski fez para a sua amante Lilia:



Talvez
Quem sabe um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa
Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias
Agora vamos alcançar
Tudo o que não pudemos amar na vida
Com o estelar das noites inumeráveis

Ressuscita-me
Ainda que mais não seja
Por que sou poeta
E ansiava o futuro
Ressuscita-me
Lutando contra as misérias
Do cotidiano
Ressuscita-me por isso

Ressuscita-me
Quero acabar de viver
O que me cabe, minha vida
Para que não mais existam
Amores servis

Ressuscita-me
Para que ninguém mais tenha
Que sacrificar-se
Por uma casa, um buraco
Ressuscita-me
Para que a partir de hoje
A partir de hoje
A família se transforme

E o pai
Seja pelo menos o universo
E a mãe
Seja no mínimo a Terra


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