segunda-feira, 24 de março de 2008

Porque eu não como carne?


Encontrei este texto no site da Sociedade Vegetariana Brasileira - Grupo Porto Alegre, sobre as razões de um judeu de não comer carne. É um texto escrito com muita sensibilidade, que nos faz refletir sobre nossos atos.

Edgar Kupfer, nascido em 1906 em Koberwitz, próximo de Breslau, era um pacifista. Preso em Dachau em 1940, ele foi abençoado, pelos deuses ou pelos guardas, dois anos depois com um trabalho no almoxarifado do campo de concentração. Em pedaços roubados de papéis de rascunho e com pedaços de lápis, ele rabiscava furtivamente seu diário secreto. Nos 3 anos seguintes, ele enterrou seus escritos, uma idéia sem dúvida inspirada no enterro dos mortos. Em 29 de abril de 1945, Dachau foi liberado; Edgar Kupfer estava livre. Os “Diários de Dachau” também estavam livres e foram publicados em 1956. Nesta época Kupfer havia se mudado para Chicago aonde vivia.

Abaixo, um contundente trecho de seus diários - a prova ineludível de que o holocausto de animais humanos e o holocasuto de animais não-humanos são duas faces da mesma moeda: a crueldade e a absoluta falta de ética que guiam os passos de nossa espécie sobre a Terra.

“Animais, Meus irmãos!”
por Edgar Kupfer-Koberwitz

(As páginas seguintes foram escritas no campo de concentração de Dachau, em meio a todo tipo de crueldades. Elas foram furtivamente escritas na barraca do hospital onde fiquei durante minha doença, em um tempo em que a morte nos tocava dia após dia, quando perdemos 12 mil pessoas em quatro meses e meio.)

Querido Amigo,

Você me perguntou porque eu não como carne e você está imaginando as razões do meu comportamento. Talvez você pense que eu tenha feito votos – algum tipo de penitência – recusando todos os gloriosos prazeres de comer carne. Você pensa em filés com molhos, peixes suculentos, deliciosos presuntos defumados, e outras milhares de preparações cárneas que seduzem milhares de paladares humanos. Então você vê que eu estou recusando todos estes prazeres e você pensa que somente penitência, um solene voto, um grande sacrifício, poderia me levar a recusar esta maneira de aproveitar a vida, suportando com grande resignação.

Você parece atônito e me pergunta: “Mas por quê e para quê? E você fica imaginado que quase adivinha a verdadeira razão. Mas se eu estou, agora, tentando lhe explicar a verdadeira razão, em uma frase concisa, você ficará atônito mais uma vez porque o seu palpite estava tão distante do meu real motivo. Escute o que eu tenho a lhe dizer.

Eu me recuso a comer animais porque eu não posso me alimentar do sofrimento e da morte de outras criaturas. Eu me recuso a fazer isto porque eu mesmo sofri tão dolorosamente que eu consigo sentir as dores dos outros pela lembrança dos meus próprios sofrimentos. Eu sou feliz, ninguém me persegue; por que eu deveria perseguir outros seres ou causar-lhes sofrimento? Eu sou feliz, eu não sou um prisioneiro; por que eu devo transformar outras criaturas em prisioneiros e jogá-las em jaulas?

Eu sou feliz, ninguém está me machucando; por que eu deveria machucar os outros ou permitir que sejam machucados? Eu sou feliz, ninguém me maltrata; ninguém vai me matar; por que eu deveria maltratar ou matar outras criaturas ou permitir que sejam maltratadas ou mortas para meu prazer e conveniência?

Não é natural que eu não inflija a outras criaturas a mesma coisa que eu espero, e temo, nunca seja imposta a mim? Não é a coisa mais injusta fazer estas coisas aos outros sem nenhum propósito além do gozo deste insignificante prazer físico, às custas de mortes e tormentos?

Estes seres são menores e mais desprotegidos do que eu, mas você pode imaginar um homem racional, de sentimentos nobres, que basearia-se nestas diferenças para afirmar o direito de abusar da fraqueza ou da inferioridade de outros? Você não acha que é justamente o dever do maior, do mais forte, do superior, de proteger a criatura mais fraca ao invés de matá-la?
“Noblesse obligé”

Eu quero agir de uma maneira nobre.

Eu me lembro da horrível época da Inquisição e eu lamento constatar que o tempo dos tribunais dos hereges ainda não terminou; que todos os dias os homens cozinham em água fervente outros seres que lhes são entregues pelas mãos de torturadores. Eu fico horrorizado ao pensar que estes homens são pessoas civilizadas, não brutos bárbaros, não nativos. Mas, apesar de tudo, eles são apenas primitivamente civilizados, primitivamente adaptados ao seu meio cultural. O europeu médio, flutuando entre idéias eruditas e belos discursos, comete todos os tipos de crueldades com um sorriso nos lábios, não porque ele seja obrigado a fazer isto mas porque ele quer fazê-lo. Não porque ele tenha perdido sua capacidade de refletir e compreender as terríveis coisas que ele está executando. Oh, não!! Apenas porque ele não quer ver os fatos. De outra maneira ele seria interrompido e aborrecido no desfrute de seus prazeres.

Considerando somente as necessidades, alguém pode, talvez, concordar com estas pessoas. Mas, será isto realmente uma necessidade? Esta tese pode ser contestada. Talvez exista algum tipo de necessidade para estas pessoas que ainda não evoluíram à personalidades conscientes.

Eu não estou pregando para eles. Eu escrevo para você, para um indivíduo ainda atento, que racionalmente controla seus impulsos, que sente-se responsável interna e externamente por seus atos, que sabe que nossa suprema corte está instalada em nossas consciências e que não há uma corte de apelação contra isto. Existe alguma necessidade que leve um homem totalmente consciente de si mesmo a respaldar uma matança? Em caso afirmativo cada indivíduo tem que ter a coragem de fazê-la com suas próprias mãos. Está é, evidentemente, uma covardia miserável: pagar à outras pessoas para sujarem suas mãos de sangue e abster-se do horror e da consternação de fazê-lo...

Eu penso que os homens continuarão a ser mortos e torturados enquanto os animais forem mortos e torturados. Enquanto isto haverão guerras, também, porque matar precisa ser treinado e aperfeiçoado em pequenos objetos, moral e tecnicamente. Eu não vejo razão para se sentir ultrajado pelo que outros estão fazendo, nem pelos pequenos ou grandes atos de violência e crueldade. Mas, eu penso que já está mais do que na hora, de se sentir ultrajado por todos os pequenos e grandes atos de violência e crueldade que realizamos contra nós mesmos. E porque é mais fácil vencer as pequenas batalhas do que as grandes, eu penso que devemos tentar vencer primeiro nossas tendências às pequenas violências e crueldades, para evitar, ou melhor, para superá-las de forma final e definitiva. Então, o dia chegará quando será fácil lutar e superar até mesmo as grandes crueldades. Mas, nós ainda estamos adormecidos, todos nós, em hábitos e atitudes herdadas. Elas são como um molho suculento que nos ajuda a engolir nossa crueldade sem sentir seu amargo gosto.

Este é o ponto: Eu quero crescer em um mundo melhor onde uma lei maior conceda mais felicidade, em um mundo novo onde o mandamento de Deus impere: “Amai-vos uns aos outros”

Fonte: http://www.svbpoa.org/index.php?option=com_content&task=view&id=306&Itemid=28

"Primeiro eles vieram atrás dos comunistas, mas eu não era um comunista, por isso eu não falei em favor deles.
Depois eles vieram atrás dos socialistas e dos sindicalistas, mas eu não era um deles, por isso eu não falei em favor deles.
Depois eles vieram atrás dos judeus, mas eu não era um judeu e por isso eu não falei em favor deles.
E quando eles vieram atrás de mim, não havia mais ninguém para falar em meu favor."


- Poema do pastor alemão Martin Niemoller (1892-1984) sobre a inatividade dos intelectuais alemães enquanto observavam o partido nazista ascender ao poder e eliminar cada um dos grupos que se contrapunha ao regime nazista.

9 comentários:

Cristiane Fetter disse...

Tem presente para você lá no To Doida.
Beijocas

Andréa N. disse...

DEMAIS!! Adorei isso.

Drika Bruzza disse...

Ai, amiga... mesmo depois de ler isso... continuo adorando uma picanha :)
Mas acho louvável o teu interesse pela defesa das tuas ações, assim como acho louvável quem defende seu filho pestinha ou sua música predileta.
É uma questão de ponto de vista: ou vai, ou não. Ou quer, ou não. Básico, humano e fiel à cultura gaudéria, pra mim um churrasco é muito mais que um boi morto... é uma confraternização em família, onde meu pai fica satisfeito de ver que adoramos uma maminha e uma costela. Não pense que num dos pratos não tem alface, e noutro tomate com cebola.

Beijos pra ti, Carla :D

Georgia disse...

Eu visitei Dachau. Hoje lá funciona como museu. Mas quem visita, nao volta mais com as visoes do mundo que tinha antes. Fora disso, ainda dá prá sentir o cheiro de carne queimada pelos fornos que ali existem.
Eu digo sempre: se os homens tivessem aprendido alguma coisa com essa guerra, eles estariam em paz.
Vou verificar as outras fontes de pesquisas indicadas por vc aqui.

E te deixo um convite:
Viemos aqui para te convidar para uma blogagem coletiva com o titulo:
O que voce pode fazer para acabar com o analfabetismo no Brasil?

Que acontecerá no proximo dia 18 de abril, dia nacional do livro.

O post convocatoria voce pode ler no blog da Georgia (http://saia-justa-georgia.blogspot.com/) e no blog da Meiroca (www.meiroca.com).

Caso voce tenha algo a dizer a respeito, deixe um comentario no blog da Georgia ou da Meiroca, para que possamos te incluir.

Participe e divulgue em seu blog.

Georgia e Meire

Carla Beatriz disse...

Cris,

ADOREI o presente!!!

Obrigada mesmo!

Beijos mil

Carla Beatriz disse...

Andréa,

Demais mesmo, né? Eu também adorei, quando li. :-)

Beijos

Carla Beatriz disse...

Drika,

Sempre em cima do muro em relação à minha postura, né? Defender o direito de não comer carne certamente não é o mesmo que defender um filho pestinha ou uma música predileta. É muito mais profundo do que isso, é uma filosofia de vida.
É possível haver confraternização sem a necessidade de se matar animais e deixar de matar um boi não vai tornar ninguém menos gaúcho do que já é. ;-)

Beijos mil

Carla Beatriz disse...

Oi Geórgia,

Fico honrada com tua visita e com o convite feito, pois fiquei pensando no assunto. Como adoro ler, não consigo imaginar o mundo de quem é analfabeto, deve ser como somente ver o mundo em preto e branco.

Podem contar com minha participação!

Beijos

Drika Bruzza disse...

Carla... eu não fico em cima do muro, e tu sabe bem. Eu não sou vegetariana, mas eu "deixo" tu ser ;P

E outra... "ser um estilo de vida" é a mesma coisa que eu usar preto, como tu às vezes reclama?
É simples ter um estilo de vida. Aliás, é até bem natural, porque cada um tem um.
Se é assim que tu prefere chamar, o fato de eu não gostar de ervilha já me faz "estilosa" :D

Beijos, gauche!